Revolta de Els Segadors Conflitos da Idade Moderna 07-06-1640





Revolta de Els Segadors Conflitos da Idade Moderna 07-06-1640 Em

7 de Junho comemora-se a revolta dos ceifeiros (Els segadors em catalão) ocorrida na Catalunha em 1640, a qual é o resultado da política do primeiro ministro do monarca Filipe III [1] da casa de Habsburgo, o conde-duque de Olivares.
A independência formal da Catalunha só ocorrerá em Janeiro do ano seguinte, mas este dia marca a revolta que levará à secessão formal.

Antecedentes


A Catalunha, era um dos vários domínios da monarquia Hispânica[2] dos Hasburgos, uma família de origem austríaca, que se tinha separado em dois braços, um deles espanhol.







Os enormes problemas enfrentados pela coroa, a desastrosa administração das questões públicas, que em grande medida começou com Filipe I (primeiro rei português da casa de Áustria), levou o ministro do seu neto Filipe III (Felipe IV de Castela), o conde-duque de Olivares a tentar efectuar uma reorganização dos reinos de forma a tentar criar um país com uma estrutura governativa centralizada.

A falta dessa estrutura centralizada era considerada um problema grave, pois os vários reinos, embora partilhassem o mesmo rei, não tinham entre si qualquer ligação especial e mantinham os seus sistemas tributários e os seus sistemas judiciais próprios, tornando extremamente difícil a gestão de todos os domínios, que muitas vezes chegavam a ter interesses conflituantes.

Um exército «hispânico» de 140.000 homens


A incapacidade de gerir os vários países que dela faziam parte era debilitante para a coroa, e um dos projectos que foi empreendido no campo militar para resolver o problema, foi a tentativa de criação de um exército de 140.000 homens que servisse o monarca, projecto que ficou conhecido como «União de Armas».

Esse projecto foi levado à aprovação dos vários reinos da coroa e encontrou diferentes níveis de aceitação após a sua publicação em 1626.

A Flandres [3] aceitou de bom grado, dado estar normalmente em guerra, bem assim como os reinos da Itália. Já na península, o reino de Castela aceitou o plano, o reino de Valência aceitou pagar, mas não aceitou ceder homens. Mas em Portugal e na Catalunha, a oposição foi total.

Nem Portugal nem a Catalunha aceitavam o plano e muito menos aceitavam ceder homens.

Conde-duque de Olivares: Decadência castelhana, guerra dos 30 anos, erros tácticos. Demasiados problemas para um só homem.

Nem os portugueses nem os catalães aceitaram o plano da União de Armas, mesmo depois de este ter sido aprovado. A Catalunha e Portugal, ficaram assim fora do plano do conde-duque de Olivares, aguardando futuras alterações legislativas que obrigassem os dois países a contribuir para as despesas militares da coroa dos Habsburgos e para sustentar os seus muitos conflitos na Europa central e do norte.

Em 1632, o processo continua a arrastar-se e os dois países continuam a negar-se a contribuir para os gastos militares da coroa.
As exigências da coroa e a resistência da Catalunha às exigências de Madrid, vão contribuir para que o ambiente geral piore bastante.





Reino de Castela: Corrupção e decadência


Se por um lado a nobreza e burguesia castelhanas custeavam grande parte das despesas militares da coroa dos áustrias, não é menos verdade que essa capacidade provinha do exclusivo do comércio do ouro e da prata que os castelhanos extorquiam aos vários povos índios da América central e dos Andes.
O grande afluxo de ouro e prata, levou a uma quebra nos preços dos metais, a qual afetou tremendamente Castela.

Felipe IV de Castela (Filipe III de Portugal): As contradições da monarquia estão expressas no cognome. Em Castela ficou conhecido como Rei Planeta, em Portugal como Filipe III, o opressor

O reino castelhano, sustentáculo principal da monarquia, minado pela corrupção e pelos jogos de poder internos, passou a olhar com olhos de cobiça para os restantes reinos da coroa dos Habsburgos – que estavam terminantemente proibidos de negociar com as Américas [4] - não só como contribuintes que a substituíssem, mas também como forma de conseguir novos mercados.

As exigências castelhanas que se juntavam à situação calamitosa em que se encontrava a economia do reino de Castela, vão condicionar as políticas do primeiro ministro do rei (Olivares era descendente de castelhanos, embora tivesse nascido em Roma).

Como solução, Olivares começa a desenvolver um plano para reorganizar a administração dos reinos.

Mas a sua visão do mundo e da realidade hispânica era completamente condicionada pela sua visão centralista e desajustada das realidades dos reinos da peninsula ibérica, ao mesmo tempo que aparentava não ter uma noção correta da real situação da coroa.

Os vários reinos que constituiam o ramo hispanico da monarquia dos Habsburgos não tinham capacidade para lutar, e os contínuos conflitos na Europa levaram a uma contestação geral. Contestação essa que chegava ao próprio núcleo principal da monarquia, o Reino de Castela.

Só parte da nobreza e da aristocracia estará com Olivares, além claro do próprio monarca Filipe III. O conde-duque tenta introduzir novos modelos de administração, os quais se vão basear no modelo castelhano, reduzindo na prática os restantes países à condição de províncias castelhanas.

Foram proféticas as palavras de Olivares, numa carta ao rei datada de 1625:

«…Vossa Majestade não deve contentar-se em ser rei de Portugal, de Aragão, de Valência, conde de Barcelona, Vossa Majestade deve trabalhar para levar a esses reinos as maneiras, as leis e os costumes de Castela…»

Toda a situação se complica ainda mais a partir de 1635, quando a França entra em guerra com os reinos Habsburgos, sendo que a Catalunha se encontrava exatamente no meio da contenda.

Quando os franceses atacam a monarquia hispânica, fazem-no no lugar mais óbvio, através da Catalunha, atacando regiões a norte dos pirineus.
Desde logo, os comandos militares em Madrid decidem enviar para a Catalunha um experto de 40,000 homens, e desses, 6,000 deveriam ser cedidos pelos próprios catalães.

Os franceses serão derrotados, mas para evitar futuros ataques, torna-se necessário manter o exército na Catalunha, o que é visto com maus olhos pelos catalães, principalmente porque são eles que têm que manter o exército do rei, e alojar os soldados.

É esta presença indesejada de soldados em território da Catalunha e o facto de os catalães não quererem sustentar a presença das tropas, que levará a uma escalada de tensão contra o governo de Madrid.

A principal cara da revolta da Catalunha, Pau Claris Casademunt, era um clérigo e jurista oriundo da burguesia de Barcelona. Terá sido de sua iniciativa a negociação com o ministro francês Richelieu para obter o apoio da França para a revolta Catalã. A sua morte em Fevereiro de 1641 ocorre em circunstâncias suspeitas, muitos acreditando que foi envenenado. No entanto, mesmo com a sua morte a republica permanecerá até que França estabelece um acordo com a monarquia dos Habsburgos espanhóis.
A principal cara da revolta da Catalunha, Pau Claris Casademunt, era um clérigo e jurista oriundo da burguesia de Barcelona. Terá sido de sua iniciativa a negociação com o ministro francês Richelieu para obter o apoio da França para a revolta Catalã. A sua morte em Fevereiro de 1641 ocorre em circunstâncias suspeitas, muitos acreditando que foi envenenado. No entanto, mesmo com a sua morte a republica permanecerá até que França estabelece um acordo com a monarquia dos Habsburgos espanhóis.

À continuada recusa dos catalães em pagar os impostos para ajudar a manter uma guerra impopular, junta-se a necessidade de enviar tropas, na sua maioria castelhanas para as fronteiras.
O aumento de tropas castelhanas na Catalunha vai aumentar ainda mais os problemas.

Igualmente aumenta o mal-estar entre o governo em Madrid e o vice-rei por um lado, e a nobreza e burguesia da Catalunha por outro, desde o inverno de 1639. Na primavera de 1640 várias revoltas estalam contra a presença das tropas castelhanas. Os camponeses revoltam-se e a seguir revoltam-se os ceifeiros que se preparavam para as colheitas do final da primavera.

No dia das festividades do Corpo de Deus (Corp de Sang) que ocorre 60 dias depois da Páscoa, a instabilidade atinge o Zénite, com o assassínio do vice-rei, a autoridade máxima representante do monarca na Catalunha.

Na prática, com esta ocorrência, terminava o poder dos Habsburgos no principado da Catalunha. O ministro de Filipe III, com tropas a lutar contra a França, pouco pode fazer.
Em desespero da causa e sem forças para debelar a rebelião, Olivares manda ordens para Portugal, para que de aquele reino se mandem tropas para acabar com a rebelião catalã.

Recusa portuguesa


Portugal poderia recrutar um exército de 10.000 a 15.000 homens, mas os portugueses recusam obedecer à ordem do conde-duque e nenhuma ajuda será enviada para atacar a Catalunha. Olivares terá que tentar reunir noutro lugar forças para debelar a revolta.

Entretanto a revolta toma o seu próprio rumo.


Prepara-se a proclamação da República da Catalunha, mas essa república não tem as necessárias estruturas para conter a explosão popular e perde o controlo da situação. Para se defenderem dos castelhanos os catalães acabam por pedir auxílio militar à França do Cardeal Richelieu, que aproveita a oportunidade para enfraquecer os exércitos dos Habsburgos, contra os quais está em guerra em várias frentes.

O cardeal Richelieu à esquerda, apoiou a Catalunha e ao mesmo tempo obrigou-a a ficar na dependência da França. O Cardeal Mazarin, à direita, assinou a paz em nome da França e abandonou a Catalunha à sua sorte.
O cardeal Richelieu à esquerda, apoiou a Catalunha e ao mesmo tempo obrigou-a a ficar na dependência da França. O Cardeal Mazarin, à direita, assinou a paz em nome da França e abandonou a Catalunha à sua sorte.

Após a assinatura do pacto de Ceret em 7 de Setembro de 1640, a França assina um acordo adicional de auxilio militar. As primeiras remessas de armamento chegam a Barcelona a partir de 12 de Dezembro de 1640.
A República Catalã, será proclamada em 16 de Janeiro de 1641.

Dez dias depois as forças castelhanas atacam Barcelona. Mas o apoio francês não foi grátis, pois perante o avanço do exército que o conde-duque de Olivares tinha conseguído reunir, os catalães, sob pressão, aceitam proclamar o rei francês Luís XIII, Conde de Barcelona.

A 26 de Janeiro de 1641, as tropas que o conde-duque consegue reunir contra os catalães atacam a cidade de Barcelona, mas são derrotadas, não conseguindo ultrapassar a fortaleza de Montjuic.

Pouco depois da vitória de Montjuic, morre Pau Claris, o lider independentista catalão.
A partir da vitória de Montjuic, a Catalunha lutará contra os Habsburgos ao lado da França.

Guerra civil em França, o principio do fim

Mas as coisas começam a correr mal a partir de 1648, quando começa a guerra civil em França (La Fronde), a qual levará os franceses a tentar chegar a acordo com os Habsburgos espanhóis.

O rei em Madrid exige o fim do apoio da França à Catalunha.
Estabelece-se assim um acordo, em que por um lado os Habsburgos espanhóis cedem aos franceses todo o norte da Catalunha – conhecido como Rossilhão - e em troca os franceses aceitam deixar de apoiar a República Catalã.

Abandonada pelos franceses a Catalunha ainda resistirá até por algum tempo. Barcelona cairá em mãos das forças castelhanas após um cerco de 18 meses, que começou em Abril de 1651. Vencida pela fome a cidade rende-se em Outubro de 1652, quando a própria nobreza da Catalunha, arruinada pelo conflito era favorável a que a Catalunha voltasse à Casa de Áustria.

Com a queda de Barcelona, e com um acordo com a França para que não apoiasse Portugal, os Habsburgos espanhóis passaram a concentrar-se no esmagamento e submissão do Reino de Portugal.



Porém, com resultados, muito diferentes…


[1] D. Filipe III, cognome «o opressor» ou «o tirano», da casa de Áustria foi rei de Portugal até 30 de Novembro de 1640, altura em que foi deposto pelo Duque de Bragança D. João IV, substituindo a casa de Áustria pela casa de Bragança no trono de Portugal.
Este monarca foi conhecido em Portugal e em Navarra como Filipe III e em Castela e noutros reinos na monarquia austríaca como Filipe IV.

[2] – O termo Hispânico até 1715 tinha o mesmo significado que hoje tem o termo «Escandinavo». Deste ponto de vista, os portugueses eram um povo hispânico. A associação de hispânico com castelhano, só ocorrerá depois daquela data. Só a partir de aí os portugueses deixarão de se considerar hispânicos.

[3] – A Flandres, era também conhecida como Países-baixos austríacos, pertencendo portanto a um dos ramos da casa real austríaca dos Habsburgos, cuja capital era Madrid.

[4] – Exceptuando Portugal que podia estabelecer relações comerciais com a América do Sul – Brasil – e que durante este período aproveitou para a partir da antiga terra portuguesa no extremo leste do continente, penetrar profundamente para ocidente, utilizando os rios como vias de comunicação. Esse processo levará ao estabelecimento do Brasil como maior país da América do Sul.

Nenhum comentário