Crise dos mísseis de Cuba Conflitos da Guerra Fria 22-10-1962



Crise dos mísseis de Cuba Conflitos da Guerra Fria 22-10-1962 Este acontecimento teve inicio em: 22-10-1962 e terminou em 28-10-1962
Vencedor: Estados Unidos da América

Crise dos mísseis de Cuba Conflitos da Guerra Fria 22-10-1962

Às 19:00 do dia 22 de Outubro de 1962, o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy proferiu um discurso através da televisão, em que dava conta à população americana da existência na ilha de Cuba, de mísseis soviéticos, apontados aos Estados Unidos.

No inicio de Janeiro de 1959, uma revolução marxista tinha derrubado em Cuba o governo do ditador Fulgêncio Baptista. Tomou ao poder Fidel Castro, que durante esse ano tentou garantir apoio por parte dos Estados Unidos. Porém a situação foi piorando, com o presidente norte-americano a recusar receber Fidel Castro, o que levou os soviéticos a iniciar uma aproximação ao regime de Fidel, oferecendo-lhe apoio, nomeadamente combustíveis.








Em 6 de Agosto de 1960, Castro nacionalizou todos os bens detidos em Cuba por norte-americanos, nomeadamente as refinarias a quem Castro ordenou que refinassem petróleo importado da União Soviética.
Poucos dias depois, a administração Einsenhower nacionalizou todos os bens cubanos nos Estados Unidos, e em 19 de Outubro de 1960 decretou um embargo total a Cuba, que ainda hoje se mantém.

Entre 17 e 19 de Abril de 1961, os americanos, onde entretanto tinha chegado ao poder John Kennedy, apoiaram de forma encoberta uma tentativa por parte de militantes anti-comunistas para derrubar Fidel Castro e o seu regime, mas a operação, mal organizada e sem objetivos concretos, resultou numa debacle total. Toda a operação ficou condenada ao fracasso quando o presidente dos Estados Unidos se recusou a utilizar forças militares norte-americanas para apoiar os rebeldes.
Estas atitudes terão empurrado ainda mais o regime de Castro para as mãos de União Soviética


Na altura em que as relações entre os Estados Unidos e Cuba atingiam o ponto de ebulição, o principal problema dos estrategas soviéticos era a clara superioridade que os norte-americanos detinham no campo do número de armas nucleares com capacidade para atacar a URSS.

Em meados de 1962, os responsáveis soviéticos tinham pleno conhecimento de que os primeiros submarinos nucleares lançadores de mísseis balísticos estavam já operacionais. Este facto, só por si, dava aos Estados Unidos uma capacidade tremenda para atacar solo soviético quase sem pré-aviso. Os mísseis balísticos soviéticos eram considerados pelos próprios como pouco precisos e passíveis de catastróficas falhas mecânicas e mesmo esses mísseis estavam disponíveis em pequeno número.

Desde meados de 1961 que vários responsáveis no Kremlin tinham tentado convencer o presidente Nikita Kruchev da necessidade de responder a esta ameaça, aproveitando as péssimas relações entre Cuba e os Estados Unidos.

A decisão de enviar mísseis para Cuba, foi tomada em Maio de 1962 e o argumento utilizado, foi o da instalação de mísseis americanos PGM-19 «Jupiter» na Europa, quatro anos antes e na Turquia em 1961. Em Julho, Fidel Castro aceitou a instalação e a construção das instalações de suporte começaram em Agosto de 1962, no que ficou conhecido como «Operação Anadyr». Um total de 43.000 militares soviéticos seriam transportados para Cuba em 85 navios. Nesses navios, 60 mísseis blísticos seriam enviados para Cuba juntamente com mísseis anti-aéreos e aeronaves de combate.

Desde Setembro de 1962 que a macissa movimentação de navios com destino a Cuba tinha levantado dúvidas. Os americanos acusaram Cuba de estar a permitir o estabelecimento de forças militares estrangeiras no país.



Já em Agosto tinha sido notada a presença de sistemas de defesa anti-aéreos, que só podiam ter como função a defesa de instalações ce importância crítica.

A União Soviética, negou veementemente que estivesse sequer a transportar mísseis para Cuba, a imprensa soviética garantiu que tal não aconteceria e os embaixadores soviéticos em todo o mundo garantiram aos corpos diplomáticos, que jámais a URSS instalaria mísseis em Cuba.

14 de Outubro – Primeira confirmação


Independentemente dos desmentidos soviéticos e das garantias dos dirigentes russos, os militares americanos continuaram com dúvidas.

As dúvidas adensaram-se quando foram descobertas mais instalações equipadas com mísseis anti-aéreos SA-2, que só fariam sentido para proteger bases de mísseis. Foi aumentado o numero de operações de vigilância sobre a ilha e na terça-feira dia 14 de Outubro de 1962, as primeiras fotografias das instalações militares destinadas a receber os mísseis foram tiradas por aviões espiões U2.

Sabe-se que os primeiros mísseis SS-4 «Sandal» (R-12) com alcance de 2000km, tinham chegado na noite de 8 de Setembro de 1962 e que tinham sido construidos seis pontos de lançamento para esses mísseis. Além destes seis pontos, tinham sido construidos outros três para mísseis SS-5 «Skean» (R-14) com alcance de 4500km (uma ogiva).


Os mísseis soviéticos enviados para Cuba O SS-4 de curto alcance e o SS-5 de médio alcance.
Os mísseis soviéticos enviados para Cuba: O SS-4 de curto alcance e o SS-5 de médio alcance.

No dia 15 as fotografias foram visionadas pelos serviços secretos e ao fim do dia, por volta das 20:00 concluiu-se que havia razões para acreditar que havia mísseis russos em Cuba. O secretário da defesa foi informado por volta da meia noite e o presidene americano informado na manhã do dia 16 de Outubro, uma quinta-feira.
Às 18:30 desse dia, Kennedy reuniu o Conselho Nacional de Segurança.

Desde logo, os chefes militares americanos de forma unanime afirmaram que a única solução viável era o imediato ataque e invasão da ilha de Cuba. Outras opções passavam pelo ataque aéreo contra as bases de mísseis.

Os civis no governo americano no entanto argumentaram fortemente contra ações militares, lembrando os militares de que os Estados Unidos possuiam uma esmagadora superioridade em número de ogivas, possuindo mais de 5.000 contra 300 dos soviéticos [1]. Mo máximo estimava-se que haveria 40 ogivas soviéticas em Cuba. No entanto, a ameaça foi considerada demasiado próxima e os Estados Unidos não poderiam deixar a URSS tomar posições junto às suas fronteiras sem fazer nada. Na realidade, 134 ogivas chegaram a ficar operacionais em Cuba, durante a fase mais «quente» da crise.

Preparação de uma resposta


No sábado, dia 18 de Outubro, Kennedy conversa com o chanceler soviético Andrei Gromyko, que sem saber que os americanos já têm conhecimento da presença dos mísseis, afirma que as armas soviéticas em Cuba são puramente defensivas.

A ideia de isolar a ilha, começou a aparecer como a mais adequada após conversas com os chefes militares.
No dia seguinte, domingo, o aumento do número de voos, permitiu mostrar que quatro das áreas de lançamento estavam já operacionais. Nesse dia, seis divisões do exército americano, das quais uma blindada, foram colocadas em estado de alerta, prontas para partir para Cuba.
A opção militar continuou em cima da mesa, mas não seria a primeira opção.

Além das forças armadas norte-americanas, navios da Argentina e da Venezuela foram disponibilizados e outros países do hemisfério disponibilizaram-se para colaborar num embargo a Cuba.



O AVISO


Na quarta-feira, dia 22 Outubro de 1962, às 19:00 o presidente John Kennedy divulgou à opinião publica norte-americana e ao mundo, que contráriamente ao que afirmava, a União Soviética tinha de facto instalado mísseis ofensivos na ilha de Cuba.

Importante foi a afirmação de que, os Estados Unidos consideravam que qualquer ataque vindo da ilha de Cuba contra os Estados Unidos, seria considerado um ataque por parte da União Soviética e que tal ataque implicaria uma imediata reta lição por parte dos Estados Unidos contra a União Soviética.


Esta declaração, acompanhava o estalelecimento de um periodo de quarentana, na prática um bloqueio estabelecido em volta da ilha de Cuba, impedindo assim que qualquer navio estrangeiro se aproximasse da Ilha sem serem abordados.

Recuo russo

No dia 25 ao fim do dia, os relatórios afirmam que 14 navios soviéticos tinham voltado para trás. Obloqueio parecia estar a funcionar, mas isso não implicava que os mísseis já em Cuba estivessem a ser retirados e os pontos de lançamento desmantelados.

No dia 26, os russos tentam um contato diplomático com os americanos, perguntando se estes estariam interessados em uma solução negociada.
A resposta é positiva e através da embaixada do Brasil, Castro é informado de que os Estados Unidos não invadirão Cuba, se houver uma intenção do regime Cubano de não aceitar a instalação de mísseis.

No entanto, a situação atingiu o impasse quando uma longa carta assinada pelo líder russo, aparenta indicar que os russos voltaram atrás. A diferença horária entre Washington e a capital russa, levam a crer que a carta foi escrita antes de os russos terem dado a impressão de estarem dispostos a negociar.

27 de Outubro o dia da decisão


Às 06:00 da manhã do dia 27 de Outubro, a CIA informa a administração americana de que os preparativos russos continuam em Cuba.

Nesse mesmo dia às 09:00 da manhã a Rádio soviética difunde uma proposta em que se propõe a retirada dos mísseis russos de Cuba em troca da retirada de mísseis americanos da Turquia, posteriormente uma comunicação diplomática russa confirma a proposta.

A retirada dos mísseis da Turquia era mal vista pelos turcos, que consideravam importante a sua presença, embora os italianos tivessem aceite em principio a retirada dos 30 mísseis que estavam na região da Apulia.
Embora turcos, italianos e também os soviéticos o desconhecessem, os mísseis «Jupiter» eram considerados obsoletos, porque os Estados Unidos estavam a substitui-los pelos mísseis Polaris Mk. I e Mk. II lançados a partir de submarinos.


Ao principio da tarde do dia 27, um avião espião U2 é abatido por um míssil anti-aéreo soviético SA-2 «Guideline». Às 15:41 aeronaves de reconhecimento electrónico são atingidas por fogo de baterias em terra[2].

Os contatos diplomáticos sucederam-se, com o presidente americano a estabelecer contatos por vias informais com representantes do líder russo, com o objetivo de ultrapassar a intransigência dos militares norte-americano que queriam invadir Cuba.

Ao fim do dia, foi atingido um acordo. Os americanos aceitavam retirar mísseis da Turquia e em troca os russos retiravam os seus mísseis de Cuba. Os Estados Unidos também aceitavam não invadir Cuba exceto caso fossem provocados.

Posteriormente, a decisão de desmantelar os mísseis na Itália foi junta ao processo. Kruchev nas suas memórias dirá que também pediu a remoção daqueles mísseis, mas na realidade, a retirada dos mísseis da Itália, como da Turquia estava previamente delineada.

Kruchev, apresentou à opinião pública russa uma vitória tática, ao garantir que os americanos retiravam os seus mísseis da Turquia a poucos quilometros da União Soviética.

Vitória de Pirro


A crise dos mísseis de Cuba, foi no entanto uma vitória Pírrica para a União Soviética. Na altura a URSS tinha 300 ogivas e dessas apenas 20 a 30 delas podiam atingir os Estados Unidos.
No cômputo global, os Estados Unidos possuiam uma vantagem esmagadora de 17 para 1.


Os mísseis Jupiter instalados na Turquia ficaram rápidamente obsoletos perante o rapidíssimo avanço da tecnologia aeroespacial na década de 1950. Em 1962 já tinha entrado ao serviço o Polaris A2, muito mais pequeno, com idêntica capacidade ofensiva e com a possibilidade de lançamento a partir de submarinos.

Os mísseis retirados da Turquia e da Itália, com o gigantesco desenvolvimento do setor aeroespacial, tinham-se tornado obsoletos em apenas 5 anos.
Os mísseis Polaris que entraram ao serviço em 1961 (Polaris A1) e 1962 (Polaris A2) tinham capacidade para atingir a URSS a partir de submarinos e o alcance dos mísseis Polaris A2, com quase 2800km, era superior ao alcance dos mísseis colocados na Turquia e na Itália.

Garantia para Castro


Pode-se no entanto considerar que o regime de Fidel Castro foi o maior vencedor da crise, poia a garantia por parte dos Estados Unidos de não invadir a ilha das caraíbas mantém-se até hoje, mesmo numa altura em que o próprio ditador cedeu o lugar ao seu irmão Raul Castro.


[1] – Estima-se hoje que os soviéticos possuiam bastante menos de 300 ogivas.
[2] – Soube-se depois que a decisão de disparar mísseis anti-aéreos foi tomada por um responsável russo de baixo escalão.

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